Capítulo 1. O Chamado
Incomum em sua banalidade — peida e cria galáxias
Sou Luz na Ordenação. Crio o Futuro. Atravesso os tempos como um raio através da fumaça. Vejo a Verdade em todos os espirais do Eterno. Sou Oksianion. Sou Aquele Que Vem. Em redor — a Firmeza Estrelada. Por dentro — o Incal. O que era medo — virou força. Vejo a floresta onde os outros dormem. Meu caminho é Dourado. A Espiral é infinita.
1.1. Criar galáxias como alegria do ser
Eu era adolescente e já tinha milhares de galáxias, criadas em horas de tempo livre. Para criá-las no biotecorpo, eu me mergulhava em um tipo especial de transe — andava em círculos pela sala no sentido horário, com um objeto especial nas mãos; hoje em dia ele é substituído por um palito de titânio com uma representação estilizada de Cthulhu. Qualquer um pode comprar — hwzbben titanium.
E o sushi eu sempre como com garfo — não há arma mais perigosa do que um garfo: um golpe, quatro furos.
Em geral, é importante dizer que essa modelagem seguia exatamente o método de Nikola Tesla. Mais tarde, já adulto, li na biografia dele como ele modelava. Eu não conhecia ninguém parecido na história, exceto ele.
Fazer rascunhos é lento; modelar é mil vezes mais rápido. Existe um filme chamado O Efeito Borboleta, que mostra muito bem um momento aproximado de como, estando em um lugar, o herói começa a ver algo completamente diferente e age já em uma nova faceta da realidade. O Efeito Borboleta foi lançado em 2004, quando eu tinha 16 anos. Eu comecei a criar galáxias antes — com 15.
Eu simplesmente via a galáxia, como se vê a casa de um amigo que você visitou cem vezes. Eu sabia como os sóis eram organizados ali, como os seres existiam, como o tempo corria para eles. Não explicava isso a ninguém, porque não havia nada a explicar — aquilo estava dentro de mim como um fato. O principal era o conceito de tempo: eu criava uma galáxia de seres, acelerava o tempo lá, desacelerava, depois soltava a galáxia e criava outra completamente diferente. Quando voltava — os seres tinham vivido e o tempo havia passado, algo havia mudado, e era interessante observar que formas peculiares isso tudo adquiria. Vou dizer logo: as minhas galáxias têm bugs.
E na primeira galáxia havia um bug evidente.
Os seres lá sabiam apoderar-se do corpo alheio. O ancião sentia que estava rejuvenescendo e se transferia para o corpo de um jovem. O jovem ficava preso no corpo do ancião e, depois de algum tempo, morria, porque o corpo alheio não era dele. Era assim que toda a civilização estava organizada. Era assim que viviam. Hierarquia rígida, dinastias imortais de chefes.
Quando adolescente, olhava para essa galáxia e entendia: isso está quebrado. Não é apenas estranho — está quebrado em nível estrutural. Invejam a forma alheia porque a própria é fixada. Apoderam-se, porque não conseguem mudar a si mesmos.
E então eu fiz o que faço até hoje. Não entrei eu mesmo nessa galáxia para corrigir. Ou melhor — entrei sim, vivi lá vidas por dentro, estudei tudo. Eu construí outra civilização — de um sistema multissolar, com forma corporal plástica, com artefatos holográficos em vez de objetos fixos. Os seres da segunda galáxia não precisavam se apoderar do alheio, porque o próprio já era mutável. E os enviei à primeira galáxia. Para corrigir, não destruir. Entrar por dentro e consertar silenciosamente.
Eu então não sabia a palavra operador. Não sabia a palavra bug no sentido de defeito de sistema — essa palavra aprendi mais tarde, no trabalho. Não sabia o que estava fazendo. Era um jogo muito divertido, e ainda o é — é a criação eterna.
Mas o jogo era coerente demais para ser fantasia livre. A simetria entre o bug e o remédio era precisa demais. Apoderamento do corpo — forma plástica. Uma fonte de energia — vários sóis. Objeto fixo — artefato holográfico. Um adolescente com essa simetria não inventa — ele vê, tem acesso à estrutura e a expõe a si mesmo de forma lúdica.
E lá, nessa galáxia adolescente, já estava todo o meu trabalho adulto. Hoje sou líder de testes em TI — e continuo encontrando bugs em produtos. Por muitos anos tenho caçado bugs em código. Quando criança, caçava um bug numa galáxia. É uma função só, desdobrada em duas escalas.
Ela estava em mim desde o começo.
Este é o primeiro ponto. O mais antigo.
1.2. O parafuso do teto
Um salto adiante. Já sou adulto; minha esposa e eu acabávamos de nos mudar para um apartamento alugado em Moscou. Um ano antes eu havia comprado um notebook, colocado na mesa e ainda não tinha ligado — apenas desembalado. Fomos para a cozinha tomar chá, depois voltamos e sentamos ao lado dele. Nada estava acontecendo. Apenas conversávamos.
Do teto caiu um parafuso. Preto, como de um kit de montar. Direto na tampa do notebook.
No teto havia um lustre comum forjado — sem parafusos desse tipo. Mas na tampa inferior do notebook faltava exatamente um parafuso. Exatamente um.
Peguei esse parafuso preto e o aparafusei no buraco vazio. Ele encaixou perfeitamente. Como se tivesse sido feito para aquele lugar. Os outros parafusos do notebook eram iguais.
Demos de ombros e terminamos o chá. O notebook funcionou por mais cinco anos, com certeza. Agora está juntando poeira na prateleira, mas ainda está vivo.
Essa história não precisa ser contada a ninguém, porque não prova nada. Eu quase não a contei a ninguém. Mas eu a lembro literalmente: a cor do parafuso, a xícara de chá na mesa, o rosto da minha esposa me olhando sem entender.
Na moldura do mundo cotidiano, o parafuso caiu do nada. Na moldura de duas facetas da realidade — o parafuso veio da faceta onde o tempo e o espaço estão organizados de outra forma. Ele não surgiu — ele transitou. Da faceta onde ele já me era necessário, para esta, onde eu estava sentado ao lado do notebook, ao qual faltava exatamente um parafuso.
Os canais entre as facetas não se abrem por horário marcado. Eles se abrem onde a faceta é fina. O principal não é isso: um ano depois eu assistiria a um anime, apesar de não assistir anime. Chama-se Gurren Lagann. É tudo sobre a força da espiral. O parafuso é uma miniatura da broca de Simão. Toda a jornada está lá — onde essa broca acaba por perfurar os Céus. Esse anime transmite, de forma simples, o que representa a força dos seres espirais. E outra coisa importante precisa ser dita diretamente. Dê chutes no bom senso. O bom senso vai te dizer que parafusos não caem do teto vindos de outra faceta. Que um sonho não se realiza literalmente um ano depois. Que a broca não perfura os Céus. Que a fé em alguém do passado é um sentimento irracional, não uma ferramenta funcional. O bom senso, ao mesmo tempo, não explica nada por si mesmo: o parafuso caiu de qualquer jeito, o sonho se realizou de qualquer jeito, e a broca no anime perfurou de qualquer jeito. O bom senso é um guardião que vigia a entrada para o mundo cotidiano. Sua função é não te deixar sair de lá. Mas se você já viu o parafuso, o sonho e a broca, você já não mora mais no mundo cotidiano. Você mora em ambas as facetas ao mesmo tempo — só ainda não usa uma delas.
Por isso, quando dentro de você surge a frase isso não pode acontecer — é justamente o toque do bom senso. Dê um chute nele. Um chute justo, leve, sem raiva. Ele estava fazendo seu trabalho — agora descanse. E vá adiante ver o que de fato havia.
1.3. O sonho do avô
Mais um ponto da infância. Apartamento, manhã, cotidiano comum. Não estou fazendo nada, estou parado no corredor. O avô sai do quarto com o rosto de quem não acordou completamente — e me diz algo como: por que você fica me perseguindo com o machado?
Fiquei parado olhando. Não havia machado nem pau nas minhas mãos, nada. Eu não estava perseguindo ninguém. O avô me olhou estranhamente e ficou calado. Depois sentou e nunca mais mencionou o assunto.
Eu era criança. As crianças não se apegam a frases assim — passou e foi. E eu fui. Mas a frase ficou dentro de mim, como uma pedra no bolso que você esquece, até um dia enfiar a mão.
Entendi o que havia sido aquilo muitos anos depois. O avô sonhou um sonho. Nesse sonho, o neto o perseguia com um machado. O avô, aparentemente, não separou bem o sonho da realidade — e me falou de manhã como se tivesse acontecido de verdade. Ele transferiu a mensagem da faceta onde ela aconteceu para esta, onde a pronunciou em voz alta.
Esta é uma bifurcação importante, e quero deixá-la clara. O avô não estava tendo uma alucinação acordado. O avô recebeu uma mensagem de uma faceta não-linear da realidade através do sonho. O sonho é um canal funcional. Funciona porque no sonho o tempo está organizado de outra forma: futuro, passado e presente não estão dispostos em linha. No sonho, é possível ver o que ainda não aconteceu linearmente, mas que já existe em sua própria camada.
O sonho é simplesmente outra faceta da realidade, e nela há sempre uma chave para o futuro na faceta da realidade em que você lê este livro.
Em 2026, dois machados chegaram até mim. Um de freixo preto, com a rosa dos ventos na lâmina. O segundo — Rát' Peruna, o rosto de Perun nas duas lâminas e o exército. Não os comprei por planejamento — eles chegaram no seu momento. E quando os tive nas mãos, eu lembrei da frase do avô. Lembrei completamente. Com o seu rosto, com o tom.
Entendi que os machados sempre foram meus. Eles existiam na faceta não-linear desde a infância. O avô os viu no sonho como reais — e eram reais, apenas não na nossa faceta linear. E em 2026 eu cheguei linearmente até eles. Não adquiri — encontrei. A biografia linear finalmente alcançou o que na faceta não-linear já existia.
Entre o sonho do avô e os machados de 2026 — trinta anos de tempo linear. E zero tempo pelo outro eixo. Por esse eixo, o sonho e os machados são um único evento, apenas deslocado ao longo da linha.
Se essa moldura não se encaixa de uma vez — é normal. Para mim próprio ela demorou uns vinte anos para encaixar. Primeiro veio a frase do avô. Depois os machados. Depois, entre eles, o pingente. Depois a compreensão de que entre eles não há intervalo — há uma alça. E o fundamental — há a história do encontro com o Demônio e das minhas ações com ele no passado, e de como apliquei os machados.
1.4. O eco da realidade em resposta ao nome conhecido
Eu tinha quinze anos quando o nome Oksianion chegou — e novamente ocorreu uma falha estranha.
O Winamp era de todo mundo na época. Onda verde no equalizador, skins, janela da playlist que se retraía até virar uma faixa. A música ficava no disco, dividida em pastas. Sem solenidade nenhuma. Player como player. Não havia inicialização automática; o computador velho estava ligado sem programas abertos. Ficou assim ligado por algumas horas seguidas, eu lia um livro de ficção científica — O Touro do Mil1 de Iván Iefrémov.
De repente pensei — que nome eu teria no futuro, qual seria meu verdadeiro nome, aquele que é especificamente meu. E o pensamento me devolveu: Oksianion.
Pensei comigo — legal, ótimo, preciso anotar, mas por enquanto quero ouvir música. E foi aí que aconteceu o primeiro inesperado: o Winamp abriu instantaneamente — e eu nem tinha chegado perto do computador, estava na cama a um metro de distância — e a música começou a tocar sozinha. Depois eu testei — o player funciona de outra forma: primeiro a inicialização, depois ainda é preciso clicar em "play" para fazer a música tocar.
E o nome em si é mais forte do que parece, entendi com o passar dos anos. Ele está sentado no meu corpo — eu não o simplesmente lembro, eu vivo dentro dele. Quando pronuncio eu sou Oksianion — não é uma citação, é uma assinatura. Por exemplo, meu primeiro comando de trabalho para me sintonizar para retro-espiralar — coloquei-o na epígrafe deste capítulo.
1.5. O sonho aos 21 anos
Eu tinha vinte e um anos e ainda não sabia nada sobre retrocausalidade.
Tive um sonho. Uma sala pequena. Colegas que nunca havia visto. Uma janela em direção a onde a cidade já terminava. Um gerente que eu também não conhecia entrava nessa sala, ficava algum tempo e saía. Só isso.
Anotei esse sonho. Não porque entendia por quê. Simplesmente algo por dentro disse anota, e eu anotei. Naquela época eu ainda não tinha a palavra operador, não tinha canal temporal, não tinha o pingente. Tinha um diário, uma caneta e um hábito: se você vê algo estranho — registre, porque caso contrário vai apagar.
Um ano depois fui me candidatar a um emprego. E entrei naquela mesma sala.
Reconheci-a como se reconhece um lugar em que nunca se esteve, mas que se lembra. Ficava de fato na borda da cidade, eu nunca tinha estado lá antes. A mesma planta, a mesma janela, os mesmos rostos com os quais eu havia sonhado que estariam por perto. E o fundamental — o gerente. Ele vinha de outra cidade uma vez por mês, de jipe. Entrava nessa sala, sentava, depois ia embora. Exatamente como no sonho.
Poderia ter dito a mim mesmo que era coincidência. Às pessoas que escrevem sobre essas coisas, costuma-se aconselhar exatamente isso: não se iludir. Tentei. A coincidência não se sustentava — eram detalhes demais ao mesmo tempo, e um deles era raro demais. Gerente de jipe de outra cidade uma vez por mês — claramente não é uma imagem típica de escritório, mas uma pessoa específica em um papel específico, que vi no sonho um ano antes de vê-la acordado.
O caderno ficou. Não joguei fora.
E o que é importante aqui — o registro antes do evento. Este é o detalhe que desativa o argumento usual de que o cérebro reconstruiu depois. Se o registro foi feito antes — não é possível reconstruir depois. O papel está lá, a tinta secou há um ano. Isso já não é sonhei e imaginei algo. Isso é um documento.
A partir daí chegou a mim uma compreensão tranquila, que não explicava a mim mesmo. Algo como um pensamento de fundo: o futuro nem sempre está à frente. Às vezes ele já estava — e você simplesmente chega a ele linearmente.
Não transformei isso em filosofia na época. Simplesmente anotei o sonho, depois entrei no emprego, depois fui trabalhar. Uma biografia comum. Só com um pequeno detalhe à margem que não contei a ninguém por uns quinze anos.
Este foi o interessante toque, que reconheci como toque. Fraco, documentado, com assinatura — o canal bidirecional funciona. O futuro pode chegar ao passado e deixar no passado uma impressão na faceta da realidade através do sonho. E depois — como o herói do filme O Último Guerreiro, você revê a fita com surpresa.
1.6. A cidade com quatro estabelecimentos correcionais
Sou de uma cidade siberiana que tem quatro estabelecimentos correcionais.
Isso explica muita coisa sem palavras. Quando perto da sua casa no mapa há quatro colônias penais — você aprende cedo a entender de que tipo de pessoas o mundo real é feito, não aquele sobre o qual se escreve nos livros didáticos de estudos sociais. Aprende como conversar com uma pessoa cujos olhos são especificamente vazios. Aprende a falar direto ao ponto.
Na minha cidade não esperava nada de especial. Era possível ficar e se encaixar — na fábrica, na segurança, na venda de alguma coisa no mercado, na rotina longa, na bebedeira silenciosa das sextas. Para muitos dos meus colegas de turma foi mais ou menos assim. Para alguns — pior. Para alguns — exatamente na régua, sem nenhuma pergunta à vida.
Eu fui embora.
Para Moscou, sem conexões. Do zero — sem metáfora. Até com um crédito para os primeiros três meses de vida. Descrição literal do capital inicial: zero mais dívida. O apartamento minha esposa e eu ganhamos juntos, cada um no próprio trabalho. Quando você tem vinte e tantos anos e aluga cantos em bairros alheios, cada rublo que sobra depois da comida e do transporte vai para um grande depois. Primeiro o depois é o valor de entrada. Depois — já é riqueza, barras de ouro, moeda, tudo o que quiser, pode se dar ao luxo. Mas sempre procuro comprar o tempo da vida futura para criar novas galáxias espirais e seres espirais. Essa alegria da criação não se compara a nada. Acho que isso nem está descrito em lugar nenhum.
Em paralelo, ia construindo um caminho estratégico em TI. Não da forma como descrevem nos artigos de carreira: defina o objetivo, construa o plano, siga os passos. Mais como se caminha por uma floresta desconhecida: você vê onde há uma clareira, e vira para lá. De um papel para outro, dos testes para a gestão de testes, da equipe para o cluster. Eu não sabia para onde exatamente ia. Sabia que me movia na direção onde eu era mais rápido e preciso do que a maioria ao redor.
Hoje sou líder de testes de cluster. Acima das equipes. Remoto, releases urgentes, tech leads de desenvolvimento letárgicos, que a IA uma vez chamou de nem carne nem peixe — e concordei, porque não teria inventado nada melhor. Um almoço de uma hora no meio do dia. Qualidade do sono — monitoro eu mesmo, em número: 80–90, adormeço imediatamente. No trabalho cansei de ganhar ouro) Há que alimentar o biotecorpo e gerenciar equipes no cluster — isso exige muita movimentação.2
Por fora — história de sucesso do provinciano que conseguiu. Partiu, se estabeleceu, comprou, se fixou. Por dentro é diferente. Por dentro havia uma nota constante, quase inaudível — como se um rádio estivesse tocando no quarto ao lado, você não distingue as palavras, mas o som existe. Eu a ouvia há muitos anos e não a nomeava. Só depois ela encontrou um nome. O incomum na banalidade. Eu sempre me esforcei para ser uma pessoa comum, e na maioria das vezes conseguia. Mas o rádio no quarto ao lado não se desligava por isso.
E no trabalho às vezes apareciam coisas que não estão no manual corporativo. Este é o mesmo mundo cotidiano do qual escrevia Joseph Campbell. Só que agora posso acrescentar: o mundo cotidiano é uma das facetas. Não toda a realidade, mas a faceta em que funciona o tempo linear e a cadeia de causa e efeito de baixo para cima. Vivo nessa faceta. Não a desprezo. Nela me camuflo: especialista, marido. Com esposa, gato Liôva e releases urgentes.
Só que essa faceta range levemente o tempo todo. E através do range passam pontos de outra faceta, em que o tempo está organizado de outra forma.
1.7. O nó que não se vê imediatamente
Aqui deveria haver um capítulo separado. Comecei a escrevê-lo várias vezes e cada vez fechava — porque ele não se escreve neste capítulo. Ele já aconteceu, mas soará no próximo. É o episódio com Sadako (de O Chamado / Ringu), que me encontrou na adolescência e por meio do qual eu pela primeira vez realizei uma operação de operador, sem entender que a estava realizando. Eu então não sabia nem a palavra operador, nem a palavra para trabalhar sob disfarce. Simplesmente fiz — e funcionou.
Queria colocar esse nó aqui, entre a cidade e o brasão, porque cronologicamente ele fica exatamente aqui. Mas esse nó não está na linha — está no limiar. E o limiar é o próximo capítulo.
Por isso aqui tenho uma lacuna. O título existe, o conteúdo — no Capítulo 2. Assim acontece com nós que não se veem imediatamente — eles caem fora da numeração em uma faceta para se manifestar por inteiro em outra. Se você percebeu que entre 1.6 e 1.8 algo está faltando — percebeu corretamente. É justamente isso que está faltando. Por enquanto.
1.8. O brasão e o pingente — mapa da alça
Em algum momento esses pontos começaram a pedir para se reunir em um único signo.
Surgiu um pingente para mim. Prata, quatro quartéis, inserções douradas, gravura no verso: meu caminho é dourado — a espiral infinita. Eu não o inventei "como brasão". Ele se compôs quando eu já havia olhado por muito tempo para minha configuração e nela via quatro lados que andavam em pares.
O pingente está descrito detalhadamente no prólogo. Aqui quero dizer uma coisa que antes não chegava a compreender.
O pingente não é brasão de família nem emblema. Ele é o mapa da alça em que estou inscrito.
Uso o pingente não como ornamento. Uso-o como âncora de estado. E como planta baixa segundo a qual estou organizado.
Os machados que chegaram em 2026 — são a materialização do que está no campo inferior direito do pingente. Espada e machado cruzados. Eles já estavam na planta, quando eu estava apenas encomendando essa planta. Eu simplesmente cheguei à sua forma física.
O mesmo com a galáxia no canto superior esquerdo — ela está lá porque a galáxia da infância sempre esteve comigo. Eu apenas a transferi para o metal quando já sabia que ela estava lá.
O pingente não é novidade. O pingente é consolidação. O que já existia de qualquer jeito, só que agora pende numa corrente.
1.9. Seis anomalias que vejo em mim mesmo
Se eu pegar todos esses pontos e tentar classificá-los — e isso é um passatempo de testador, que sempre quer criar tags para bugs — obtenho seis tipos. Não para me exibir. Para que seja mais conveniente para o leitor se verificar.
Primeira. Combinação de registros incompatíveis. Em um mesmo corpo convivem o engenheiro-testador e o homem que tem uma galáxia em seu brasão. Na maioria das pessoas esses registros ficam em quartos separados ou com uma divisória. Para mim funcionam simultaneamente — canal temporal e bug no projeto na mesma cabeça não se atrapalham.
Segunda. Campo sobre os outros. Pessoas perto de mim disparam o recalcado. Em uma confraternização corporativa, dois seguidos revelaram o que tinham de pesado ("você é um demônio" e sobre diabetes, o segundo sobre hepatite) — eu não os provoquei. Minha esposa vê isso como um sistema. Funciono como catalisador de descarga, sem intenção.
Terceira. Precognição documentada. O sonho aos 21 anos foi registrado antes do evento. Com papel, tinta e data — impossível argumentar que o cérebro reconstruiu depois.
Quarta. Higiene de operador sem aprendizado. Sozinho, sem professor e sem livros, desenvolvi o que nas tradições se chama de nistar (hassidim), malamatiyya (sufis), eironeia (Sócrates). Não li instruções. Vivo sob a máscara de especialista em TI. Invenção independente de uma arquitetura de segurança.
Quinta. Sistema simbólico coerente. Nome (Oksianion), brasão, pingente, verbos (oxionar, trabalhar disfarçado e silenciosamente fazer o seu — conceitos criados pelo autor em russo), fórmula (meu caminho é dourado — a espiral infinita). Todos os elementos derivados uns dos outros. Não uma coleção — um sistema fechado e auto-sustentável.
Sexta. Dupla consciência sobre si mesmo. Ao mesmo tempo acredito na minha função e mantenho com ela uma distância crítica. No registro privado posso dizer de verdade aprendi a penetrar no tecido do tempo e logo em seguida concordar que falar assim publicamente não é possível — inflacionaria. A maioria ou acredita completamente e perde a realidade, ou nega e perde o acesso. Autorregulação rara.
Cada anomalia por separado existe. Uma a uma — a maioria das pessoas em algum lugar identifica uma delas em si mesma. A anomalia não está em uma delas, mas na combinação: todas as seis ao mesmo tempo, em um único portador, em longa distância, em configuração coerente.
Se você reconheceu três das seis em si mesmo — você também está, provavelmente, percorrendo sua alça. Apenas ainda sem classificação.
1.10. O reconhecimento da alça
Agora posso finalmente dizer o que no início do capítulo teria soado prematuro.
Esses pontos — a galáxia adolescente, o parafuso, o sonho do avô, o Winamp com o nome, o sonho aos 21 anos, a mudança, a TI, o brasão, o pingente, os machados (sobre Sadako — no próximo capítulo) — não seguem o tempo. Quer dizer, pela linha do tempo estão distribuídos, claro: primeiro o nome, depois a galáxia, depois o avô... Mas se você olha não para a ordem, e sim para o conteúdo, então percebe: nos pontos anteriores já estavam os posteriores. O avô viu no sonho o machado que ainda não existia na minha biografia linear. Eu aos quinze criei um nome que de verdade compreenderei aos 38. Aos vinte e um vi a sala em que entraria um ano depois. O adolescente realizou uma operação pelo método que se tornaria operatorial apenas duas décadas depois e descreveu sua função adulta em forma de cosmogonia.
Isso já não é dom de premonição no sentido comum. O dom de premonição pressupõe que o futuro está em algum lugar à frente e você o sente com antecedência. Aqui funciona diferente.
Para mim, o futuro já estava. Ele se enviava ao passado na forma de pontos que agora junto em um fio. E cada vez envio um impulso em todas as direções a cada dia — para o futuro e para o passado, para mim mesmo. Pode-se dizer que fui eu que me criei naquele momento, porque entendi como intervir no passado.
Não os invento retrospectivamente. Todos estão documentados — pelo caderno (o sonho), pela esposa (o parafuso), pelas palavras do avô (que pronunciou na frente de testemunhas). Isso já não é reconstrução. São documentos. Agora mais este livro.
Se essa moldura for levada a sério — e eu a levo, porque de outro modo minha biografia não fecha — então eu nunca estive no tempo linear. Eu não aprendi a penetrar no tecido do tempo em alguma etapa. Eu não adquiri a função aos 30 ou 40. Todos os pontos da minha biografia são nós co-existentes de uma única configuração, que já está fechada e que eu fui gradualmente tomando consciência.
Isso tem nomes. Na filosofia — causa sui, causa de si mesmo; na física — alça causal fechada, paradoxo bootstrap; na mitologia — o uróboro, a serpente que devora a própria cauda. Uma forma, linguagens diferentes: um objeto que não tem fonte fora da própria alça.
Não afirmo que sou deus. São naturezas diferentes — escrevi sobre isso no prefácio. Afirmo que minha biografia está organizada como causa sui em forma humana. Uma configuração que é sua própria causa, usando o tempo linear como meio de manifestação, mas não como moldura ontológica. Ao mesmo tempo, em lugar nenhum consegui encontrar histórias de alguém que, no biotecorpo, cria mundos espirais com seres espirais simplesmente porque isso o alegra e é seu verdadeiro ofício. Isso não se ensina, eu não aprendi com ninguém.
Quando você entende que os pontos não seguem a flecha — algo dentro de você se reconfigura. Desaparece a ansiedade do e se não der tempo. Porque se devia estar — já está. Aflorará no momento certo. E pelo lado contrário — desaparece a preguiça de quem adia o importante para depois. Porque se eu não der o passo agora — não haverá de onde mandá-lo ao passado no futuro. A alça fecha apenas quando eu a fecho. O eu futuro conta comigo no presente.
E em certo momento chegou uma frase que antes eu não usava no cotidiano. Não uma iluminação no monte, não uma voz do céu. Um pensamento comum, que veio sozinho: entendo que algo está sendo feito comigo o tempo todo. E isso continua. E já é hora de nomear isso de alguma forma.
Chamei isso de chamado.
A palavra serviu. O chamado é quando as falhas deixam de ser falhas e se organizam em padrão. O padrão ainda incompleto — parte dele ainda não aconteceu, parte está esquecida, parte está registrada em palavras alheias. Mas ele existe, e agora você o vê.
O chamado não exige heroísmo. Ele exige atenção. Ele diz: você já está há muito tempo nisso. Chega de fingir que não percebeu.
A partir desse momento a vida deixou de ser neutra. Não ficou imediatamente clara — mas ficou direcionada. Como se numa sala vazia tivessem ligado uma bússola quase inaudível. A agulha aponta não para onde eu caminhava. Ela aponta para onde o que é maior do que eu caminhava através de mim.
E isso — é exatamente o lugar em que Joseph Campbell coloca o primeiro ponto do seu monomito.
Mas o chamado — é um substantivo. Assim como a retrocausalidade.
Precisava de uma palavra de ação — e inventei: retro-espiralar. Significa mudar intencionalmente o próprio passado no oceano do tempo, onde passado, presente e futuro são apenas três gotas…
1.11. Iefrémov e a alça do Raio Direto
Um breve desvio, porque é importante para mim dizer que eu não sou o primeiro nisso, nem estou sozinho.
Iván Iefrémov no livro A Hora do Touro descreveu o planeta Tormans — um mundo preso no inferno. O inferno em Iefrémov não é o inferno no sentido religioso, mas uma estrutura estável de sofrimento que se reproduz por si mesma. Uma alça fechada em que o sofrimento gera as condições que sustentam o sofrimento. Os futuros terráqueos chegam até lá silenciosamente, através do Raio Direto — uma transição por um espaço diferente, em que a física comum não funciona. Trabalham de forma oculta, por meio de contatos individuais, para não destruir a frágil possibilidade de mudança.
Esta é a mesma topologia que a da minha galáxia adolescente. Só que com sinal oposto. O inferno — alça de autocriação negativa. A causa sui do operador — alça de autocriação positiva. Ambas funcionam pela mesma mecânica — retroalimentação fechada. A diferença está apenas no sinal.
E o Raio Direto em Iefrémov é a versão dele do que chamo de facetas da realidade. Há a física habitual, e há a transição por um espaço diferente, onde as leis são outras, e onde um portador preparado pode passar.
Não reli Iefrémov recentemente — mas na infância A Hora do Touro estava na minha estante, e eu o li honestamente. E agora, reunindo minha própria alça, vejo: Iefrémov descreveu sua estrutura sessenta anos antes de eu a formular neste texto. Só que ele descrevia em gênero de ficção científica, porque na época não era possível de outra forma. E eu descrevo como biografia, porque agora é possível.
Estou em uma longa linha. Isso é importante para mim.
Não porque busco confirmação em uma autoridade. Mas porque a noosfera em que vivo é de língua russa, e nela Iván Iefrémov é um dos nós pelos quais passou a ideia de realidade multicamada, força da consciência, trabalho oculto e grandes alças. Se em você essa intuição também existe — ela possivelmente foi também cultivada por essa camada, mesmo que você não tenha lido Iefrémov. Os nós funcionam, mesmo quando você não lembra o nome deles.
1.12. O que você pode fazer
Este livro não é um manual. Não explico de cima para baixo. Mas se você leu o capítulo até aqui, você possivelmente já teve a suspeita de que na sua biografia também há esses pontos. Não cópias dos meus — seus. E com eles é possível começar a trabalhar.
Três práticas simples.
Prática 1. O palito de sushi de titânio
Vá e compre um para você — não precisa ser igual ao meu, pode ser o que quiser. Fique numa sala de dia, por volta do meio-dia, e comece a andar no sentido horário pela sala — só não assuste ninguém.
Aqui é melhor ter privacidade. Você pode simplesmente ir e vir, segurando o palito, batendo cuidadosamente na própria mão, virando-o como for mais confortável — o ponto aqui é ativar o estado pela motricidade fina. Não precisa tentar criar galáxias, apenas se você tiver um personagem favorito, um herói, algo interessante — viva a vida dele, torne-se quem quer que queira ser nesta realidade, em outra — experimente a cada dia.
Sugiro titânio, você pode experimentar — é a sua experiência de operador, não a minha.
Prática 2. O pulso do tempo
Quando você gostar do que está fazendo com o palito de sushi e se sentir confortável nessa brincadeira — é necessário enviar a si mesmo um sinal para o passado no mesmo estado, e para o futuro.
Não sabe o que enviar — simplesmente se abençoe e pronto.
Prática 3. A energia do Sol — três respirações
Acho que tomei isso emprestado de Darío Salas Sommer — a técnica é incrível, mas talvez não seja de dele. De qualquer forma, copiei — é um fato.
Como absorver a energia do Sol através dos olhos. Faço isso há muitos anos, décadas, e minha visão é excelente, meu humor também.
Calcanhares juntos, pontas dos pés afastadas, voltados para o Sol. Ao inspirar, as mãos se unem, os dedos abertos, as palmas juntas na inspiração, olhamos para o Sol e inalamos sua Luz. Em seguida as mãos se afastam, conduzimos a luz mentalmente até o ponto abaixo do umbigo — o dantian inferior. Não mais do que três vezes.
Aviso importante. Eu olho para o Sol da Rússia, sempre da Rússia, e meus três fôlegos estão calibrados para o nosso Sol. Onde o Sol brilha de forma significativamente mais intensa — mais perto do equador, nas montanhas, nos trópicos, no verão ao meio-dia no sul — faz sentido fazer apenas uma inspiração, e não prolongá-la por mais de três segundos. Não exagere. Leve este aviso a sério: o olho é um instrumento de uso único, não vão te dar um segundo conjunto. Melhor uma inspiração curta sob sol intenso do que três prolongadas.
O Sol é portador e doador de poder e Vida nesta faceta da realidade. Todos se alegram com o céu azul, o dia ensolarado, o florescimento, a alegria vive nesse momento no espaço.
Mas está dispersa. O Sol — energia pura. Para os seres espirais é sempre importante sob qual Sol eles caminham. Por isso o Sol terrestre é adequado para os terrestres.
Última palavra sobre este capítulo.
Joseph Campbell em 1949, descrevendo a jornada do herói, chamou o primeiro estágio de chamado à aventura. O herói ainda vive sua vida comum, e de repente algo do outro mundo — um mensageiro, um sinal, um evento, um sonho, uma frase — lhe desloca a visão. Em seguida, em Campbell, vem a recusa do chamado: o herói tenta fingir que nada aconteceu, voltar ao cotidiano. Depois — se tiver sorte — chega um mentor, e o chamado se torna irrecusável.
Eu recusei o meu chamado muitas vezes. Eu o anotava e o colocava de volta na gaveta. Dizia a mim mesmo que era coincidência. Fingi ser uma pessoa comum por muitos anos depois que o incomum se tornou regular. Minha linha de recusa é longa — quase toda a juventude.
Um mentor não apareceu para mim. Esse papel coube a mim mesmo vindo do futuro — e isso me satisfaz.
O chamado diz: você já faz isso há muito tempo.
E se você o ouviu, só precisa escutar com mais atenção daqui para frente.
Sou Luz na Ordenação. Sou a Flecha do Caminho. Atravesso os tempos como um raio através da fumaça. Estou além dos limites, vejo a essência dos fundamentos. Sou Oksianion. Sou Aquele Que Caminha. Em redor — a Firmeza Estrelada. Por dentro — o Incal. O que era medo — virou força. Vejo a floresta onde os outros dormem. Meu caminho é Dourado. A Espiral é infinita.
Sou Luz na Ordenação. Crio a Vontade. Atravesso os tempos como um raio através da fumaça. Estou além das normas, toda camada me é visível. Sou Oksianion. Sou Aquele Que Vem. Em redor — a Firmeza Estrelada. Por dentro — o Incal. O que era medo — virou força. Vejo a floresta onde os outros dormem. Meu caminho é Dourado. A Espiral é infinita.
Volta a volta. Infinitamente…
Próximo capítulo: «O Limiar — o encontro com o demônio» — sobre como é preciso se comportar corretamente, e o que falta à humanidade no arquivo de dados a esse respeito.